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BREVIDADE DA VIDA
SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO – PREPARAÇÃO PARA A MORTE
Que é nossa vida?… Assemelha-se a um fraco vapor que o ar dispersa
e desaparece completamente. Todos sabemos que temos de
morrer. Muitos, porém, se iludem, imaginando a morte tão
afastada que jamais houvesse de chegar. Jó, entretanto, nos
adverte que a vida humana é brevíssima: “O homem, vivendo
breve tempo, brota como flor e murcha”. Foi esta mesma
verdade que Isaías anunciou por ordem do Senhor. “Clama —
disse-lhe — que toda a carne é erva… verdadeira erva é o
povo; seca a erva, e cai a flor” (Is 40,6-8). A vida humana
é, pois, semelhante à dessa planta. Chega a morte, seca a
erva; acaba a vida e murcha cai a flor das grandezas e dos
bens terrenos.
A morte corre velocíssima sobre nós, e nós, a cada instante,
corremos para ela (Jo 9,25). Este momento em que escrevo —
disse São Jerônimo — faz-me caminhar para a morte. “Todos
temos de morrer, e nós deslizamos como a água sobre a terra,
a qual não volta para trás” (Jó 27,15). Vê como corre o
regato para o mar; suas águas não retrocedem; assim, meu
irmão, passam teus dias e cada vez mais te acercas da morte.
Prazeres, divertimentos, faustos, lisonjas e honras, tudo
passa. E o que fica? “Só me resta o sepulcro”
(Jó 17,1).
Seremos lançados numa cova e, ali, entregues à podridão,
privados de tudo. No transe da morte, a lembrança de todos
os gozos que em vida desfrutamos e bem assim das honras
adquiridas só servirá para aumentar nossa mágoa e nossa
desconfiança de obter a salvação eterna. Dentro em breve, o
pobre mundano terá que dizer: minha casa, meus jardins,
esses móveis preciosos, esses quadros raríssimos, aqueles
vestuários já não serão para mim! Só me resta o sepulcro.
Ah! com que dor profunda há de olhar para os bens terrestres aquele
que os amou apaixonadamente! Mas essa mágoa já não valerá
senão para aumentar o perigo em que se acha a salvação. A
experiência nos tem provado que tais pessoas, apegadas ao
mundo, mesmo no leito da morte, só querem que se lhes fale
de sua enfermidade, dos médicos que se possam consultar, dos
remédios que os aliviem. Mas, logo que se trata da alma,
enfadam-se e pedem para descansar, porque lhes dói a cabeça
e não podem ouvir conversação. Se, por acaso, respondem, é
confusamente e sem saberem o que dizem. Muitas vezes, o
confessor lhes dá a absolvição, não porque os acha bem
preparados, mas porque já não há tempo a perder. Assim
morrem aqueles que pensam pouco na morte.
Exclamava o rei Ezequias: “Minha vida foi cortada como por tecelão.
Quando ainda estava urdindo, ele me cortou”
(Is 38,12).
Quantas pessoas andam preocupadas a tecer a teia de sua
vida, ordenando e combinando com arte seus mundanos
desígnios, quando os surpreende a morte e rompe tudo! Ao
pálido resplendor da última luz todas as coisas deste mundo
se obscurecem: aplausos, prazeres, pompas e grandezas.
Grande segredo o da morte! Sabe mostrar-nos o que não veem os
amantes do mundo enganador. As mais cobiçadas fortunas, os
postos mais elevados em dignidade, os triunfos mais
estupendos, perdem todo o seu esplendor considerados à vista
do leito mortuário. Convertem-se então em indignação contra
nossa própria loucura as ideias que tínhamos formado de
certa felicidade ilusória. A sombra negra da morte cobre e
obscurece até as dignidades régias.
Durante a vida, nossas paixões nos apresentam os bens do mundo de modo
mui diferente do que são. A morte, porém, lhes tira o véu e
os mostra na sua realidade: fumo, lodo, vaidade e miséria.
Meu Deus, para que servem depois da morte riquezas, domínio
e reinos, quando, ao morrer, temos apenas necessidade de um
ataúde de madeira e de uma mortalha para cobrir o corpo?
Para que servem honras, se apenas nos darão um cortejo
fúnebre ou pomposas exéquias, que de nada nos aproveitarão
se a alma está perdida? Para que serve formosura do corpo,
se não contém mais que vermes, podridão espantosa e, pouco
depois, pó infecto? Ele me reduziu a ser como a fábula do
povo, e sou um ludíbrio diante deles. Morre um ricaço, um
governador, um capitão, e por toda parte sua morte será
apregoada. Mas, se viveu mal, virá a ser censurado pelo
povo, exemplo da vaidade do mundo e da justiça divina, e
escarmento para muitos. Na cova será confundido com os
cadáveres dos pobres. “Grandes e pequenos ali estão”
(Jó
3,19). De que lhe serviu a galhardia do seu corpo, se agora
não passa de um montão de vermes? De que lhe valeu a
autoridade que possuía, se agora seus restos mortais estão
condenados a apodrecer numa vala e a sua alma arrojada nas
chamas do inferno? Oh! que desdita ser para os demais objeto
de semelhantes reflexões, e não as haver feito em benefício
próprio! Persuadamo-nos, portanto, que, para remediar as
desordens da consciência, não é apropriado o tempo da morte,
mas sim o da vida.
Apressemo-nos a pôr mãos à obra naquilo que então não
poderemos fazer. Tudo passa e fenece depressa (1Cor 7,29).
Procuremos agir de modo que tudo nos sirva para conquistar a
vida eterna.
Que grande loucura expor-se ao perigo de uma morte infeliz e começar
com ela uma eternidade desditosa, por causa dos breves e
miseráveis deleites desta vida tão curta! Oh, quanta
importância tem esse último instante, esse último suspiro,
esta última cena! É uma eternidade de gozos ou de tormentos.
Vale uma vida sempre feliz ou sempre desgraçada.
Consideremos que Jesus Cristo quis morrer vítima de tanta
amargura e ignomínia para nos obter morte venturosa. Com
este objetivo nos admoesta e ameaça, tudo para que
procuremos concluir a hora derradeira na graça e na amizade
de Deus.
Até um pagão, Antístenes, a quem perguntaram qual era a maior dita
deste mundo, respondeu que era uma boa morte. Que dirá,
pois, um cristão, a quem a luz da fé ensina que nesse
momento se enceta um dos dois caminhos, o do eterno
sofrimento ou o da eterna alegria? Se numa bolsa metessem
dois bilhetes: um com a palavra inferno, outro com a palavra
glória, e tivesses que tirar à sorte um deles para seguir
imediatamente ao lugar indicado, que precaução não tomarias
para tirar o que desse entrada para o céu? Os desgraçados,
condenados a jogar a vida, como haveriam de tremer ao
estender a mão para lançar os dados de cuja sorte dependesse
a sua vida ou a sua morte? Com que espanto te verás próximo
desse momento solene em que poderás dizer a ti mesmo: Deste
momento depende minha vida ou minha morte eterna! Decide-se
agora se hei de ser eternamente feliz ou desgraçado para
sempre!… Refere São Bernardino de Sena que certo príncipe,
ao expirar, dizia atemorizado: Eu, que tantas terras e
palácios possuo neste mundo, não sei, se morrer esta noite,
que mansão irei habitar!
Se crês, meu irmão, que hás de morrer, que existe eternidade, que se
morre só uma vez, e que, dado este passo em falso, o erro é
irreparável para sempre e sem esperança de remédio: por que
não te decides, desde o momento em que isto lês, a praticar
quanto puderes para te assegurar uma boa morte?… Era a
tremer que Santo André Avelino dizia: Quem sabe a sorte que
me estará reservada na outra vida: salvar-me-ei?… Tremia um
São Luís Beltrão de tal maneira que, em muitas noites, não
lograva conciliar o sono, acabrunhado pelo pensamento que
lhe dizia: Quem sabe se te condenarás? E tu, meu irmão, que
de tantos pecados és culpado, não tremes? Apressa-te em
tomar o remédio oportuno; decide entregar-te inteiramente a
Deus, e começa, desde já, uma vida que não te aflija, mas
proporcione consolo na hora da morte. Dedica-te à oração;
frequenta os sacramentos, evita as ocasiões perigosas e, se
tanto for preciso, abandona o mundo para assegurar tua
salvação, persuadido de que, quando desta se trata, não há
confiança que baste.
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