Instituto Missionário dos Filhos e Filhas da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e das Dores de Maria Santíssima

 

2 de maio

 

Santo Atanásio, Bispo e Doutor da Igreja (+ 373)

 

Alexandria é a terra que deu à Igreja este grande doutor e defensor da doutrina católica. Atanásio nasceu em 296, filho de pais nobres e piedosos. Dotado de inteligência raríssima, fez Atanásio rápidos progressos nas ciências divinas e profanas. À medida que os conhecimentos se lhe alargavam, mais se lhe solidificavam as virtudes e a piedade. Confiado a Santo Alexandre, na escola deste santo homem recebeu uma educação aprimorada.

O desejo de vida perfeita levou-o à solidão de Santo Antão, na companhia do qual passou dois anos. Só a obediência pode levá-lo a abandonar este doce remanso de paz. O mestre Alexandre, que tinha sido elevado à dignidade de patriarca de Alexandria, chamou-o para perto de si, a fim de se lhe aproveitar do talento, na luta contra os hereges.

Quando se realizou o célebre concílio de Nicéia, Atanásio, sendo apenas diácono, acompanhou o Prelado para aquela eminente demonstração da fé católica. Os erros arianos foram por ele refutados com tanto brilho, clareza e evidência, que causou admiração a todos os assistentes.

Se o seu discurso foi um triunfo para a causa católica, conquistou-lhe também o ódio dos arianos, que lhe declararam implacável guerra, a começar daquele momento, até o dia da morte.

Prevendo o próximo desenlace fatal do patriarca, Atanásio, para esquivar-se da mais que provável eleição, fugiu de Alexandria. Alexandre, conhecendo o plano do amigo, disse-lhe: “Atanásio, pensas em salvar-te pela fuga; pois fica sabendo que de nada te servirá e não te livrará do cargo de patriarca”.

Efetivamente foi Atanásio eleito sucessor de Alexandre. Só seis meses depois da eleição, lograram os fiéis descobrir o esconderijo do novo Pastor. De nada lhe valeram as desculpas inspiradas pela humildade. O povo conduziu-o, como que em triunfo, à capital, e Atanásio, se bem que entre lágrimas, tomou posse do cargo.

O governo sapientíssimo, enérgico e resoluto que teve a diocese, durante a sua administração, é prova patente de como foi providencial a elevação de Atanásio à sede patriarcal de Alexandria.

Os arianos não viram de bons olhos este estado de coisas. Como não lhes fosse possível anular ou perturbar a eleição de Atanásio, recorreram à vil calúnia, para desta maneira lhe destruir o prestígio junto do Imperador. Este convocou um concílio na cidade de Tiro, para o qual citou Atanásio, com o fim declarado de responder às acusações contra ele levantadas. A assembléia compunha-se na maioria de bispos arianos portanto de inimigos de Atanásio. Ainda assim Atanásio compareceu.

A primeira acusação foi insidiosamente feita por uma mulher, que, assalariada pelos inimigos do Patriarca, em plena assembléia, sem conhecer pessoalmente a Atanásio, lhe lançou em rosto uma grande infâmia. Respondeu-lhe, não Atanásio, mas o secretário Timóteo, igualmente desconhecido da acusadora. “Como – disse Timóteo – eu teria entrado em tua casa? Teria te feito propostas indignas?” – “Sim, respondeu a mulher, quem então foi senão tu!” – “Sim, respondeu a mulher, quem então foi senão tu!”  e confirmou essas palavras com um juramento. A assembléia toda, tendo sido testemunha desta cena, reconheceu, se bem que contrafeita, a inocência de Atanásio.

Recorreram os inimigos a uma outra astúcia, que, segundo lhes parecia, não havia de falhar. Espalharam o boato de Atanásio ter assassinado um bispo de nome Arsênio, cuja mão direita levava consigo, para praticar obras de feitiçaria. Chegaram mesmo a apresentar uma caixa, com a tal suposta mão, afirmando que era a mão do bispo assassinado. Atanásio, porém, que tinha absoluta certeza de estar em vida o tal bispo Arsênio, pô-lo a par do que se tratava e convidou-o a vir até Tiro. Arsênio chegou e hospedou-se em casa de Atanásio por algum tempo. Em uma das sessões em que se tratava da questão de Arsênio, Atanásio perguntou aos bispos presentes, um por um, se conheciam Arsênio. Alguns responderam afirmativamente. Foi o momento que Atanásio tinha escolhido para desmascarar e humilhar os inimigos. A um sinal seu, abriu-se a porta da sala e entrou Arsênio, dando com sua presença testemunho da inocência de Atanásio.

Os inimigos, em vez de reconhecerem o erro, ainda mais se enfureceram contra o Patriarca. Tanto insistiram com o Imperador Constantino, que este determinou o exílio de Atanásio para Treves. O Bispo de Treves, São Maximino, recebeu-o com todas as honras. As notícias que Atanásio recebia de Alexandria, eram sumamente consoladoras, dizendo que os fiéis rejeitavam toda e qualquer comunicação com a Igreja ariana.

Pedidos dos diocesanos de Alexandria, dirigidos ao Imperador, para que determinasse a reabilitação do Patriarca, não foram atendidos, alegando Constantino que não lhe era lícito agir contra as resoluções de um concílio.

Constantino morreu em 12 de maio de 337. No leito de morte, depois de ter recebido o santo Batismo, reconheceu a inocência de Atanásio e decretou-lhe a volta para Alexandria. Só em 338 foi executada esta ordem.

O império foi dividido entre os três filhos de Constantino: Constantino, Constâncio e Constante. O primeiro, Constantino, a quem coube a parte da Gália, deu liberdade a Atanásio, o qual em triunfo, foi recebido na sua metrópole, Alexandria.

Os arianos, porém, não descansaram, e armaram nova perseguição contra Atanásio. Baseando-se na lei, que decisões de concílio só por outro concílio podem ser alteradas, com consentimento do imperador do Oriente, Constâncio, convocaram um novo concílio em Antioquia, no qual fizeram eleição de um novo bispo de Alexandria. O eleito era sacerdote ariano, Gregório.

Atanásio dirigiu-se à Roma, invocando a autoridade do Papa Júlio, o qual o recebeu mui cordialmente. O concílio de Sárdica, presidido pelo Papa, como um outro sínodo convocado pelos imperadores católicos Constantino e Constante, em Jerusalém, reconheceram os direitos de Atanásio, e confirmaram-no na qualidade de Patriarca de Alexandria. Os arianos opuseram-se tenazmente. Uma carta, porém do imperador Constante, dirigida a Constâncio, em tom ameaçador, fez com que este respeitasse as deliberações dos concílios católicos e restabelecesse Atanásio no uso dos direitos.

Morreu Constante, e desencadeou-se nova tempestade contra Atanásio. Constâncio cedendo às exigências dos arianos, convocou o concílio de Milão, que condenou novamente a Atanásio e exigiu da Igreja de Alexandria a agremiação à Igreja ariana. Neste concílio foram praticadas mil crueldades e injustiças. Atanásio viu-se obrigado a fugir e procurar um abrigo contra a sanha dos arianos. Durante cinco anos habitou uma cisterna seca, escondido e secretamente mantido por um amigo. Seis anos durou o exílio, durante o qual escreveu as obras mais importantes contra a seita ariana.

Pela morte de Constantino, foi lhe permitido voltar à diocese, em virtude de um decreto de Juliano, o Apóstata, que deu liberdade a todos os bispos católicos exilados. Não tardou, porém, nova perseguição, e Atanásio, para não cair nas mãos dos inimigos, que lhe queriam a morte, procurou salvação na fuga.

Navegava o santo para o exílio, mas outro navio o perseguiu para o prender. Atanásio sabendo disto, ardilosamente soube se salvar do perigo. Mandou que sua embarcação fosse ao encontro do perseguidor. Chegaram à fala: “Não viram Atanásio? – “Sim, passou por aqui, e não deve estar longe. Persigam-no, e poderão alcançá-lo”. Só durante o governo de Joviano lhe foi concedida a paz e tranqüilidade, por espaço de três anos, tempo de grande prosperidade para a fé católica. O sucessor de Joviano, Valente, empregou novamente medidas extremas contra os bispos católicos, mandando-os para o exílio. Atanásio escondeu-se no túmulo do pai, durante quatro meses. Foi esta a última perseguição sofrida pelo grande Bispo. Receando as autoridades uma revolução em Alexandria, se não reconduzissem o pastor do rebanho, chamaram-no, e Atanásio dirigiu a diocese até à morte, isto é, quatro anos ainda. Em 373 foi o grande propugnador da Igreja Católica receber a recompensa na eternidade. São Gregório Nazianzeno diz no panegírico de Santo Atanásio, exalto a virtude; porque elogiar àquele que reúne em si todas as virtudes, é enaltecer a própria virtude. Atanásio foi uma coluna da Igreja e o modelo dos Bispos”.

Ortodoxo era aquele que confessava a doutrina de Atanásio.

 

REFLEXÕES

 

A vida toda de Santo Atanásio consumiu-se na luta contra os hereges. Hereges houve sempre, ainda existem e sempre os haverá. Quem observa bem o movimento das heresias, na história da Igreja, facilmente chega a descobrir as seguintes características, que estigmatizam os hereges e suas obras:

1. O apóstolo da heresia veste-se sempre da capa da virtude e santidade para enganar os incautos. São Bernardo caracteriza os maniqueus do seu tempo com as seguintes palavras: “Têm costumes ilibados: não oprimem a ninguém; a ninguém fazem mal; o rosto denuncia-lhes mortificação e jejum; não são ociosos e ganham honestamente a subsistência”.

2. Para justificar sua conduta, proferem mil acusações e queixas contra a Igreja Católica: dizendo que é ambiciosa e despótica, os Bispos são amigos do luxo, ninguém há mais orgulhoso que os cardeais; hipócritas são os sacerdotes e os religiosos. Não há heresia que não toque nesta tecla batidíssima. A intenção é mais que clara: inocular no espírito dos fiéis a desconfiança, o descontentamento e desrespeito à autoridade. É esta a arma, que sempre manejaram e manejam, e sempre há católicos, que se deixam enganar e perverter. Todos deviam ponderar a palavra de Santo Agostinho, que diz: “A queixa de um herege (o que se deve estender a todos os inimigos da Igreja) contra um sacerdote, não merece consideração, por ser sempre suspeita”.

3. O herege é inimigo da autoridade da Igreja e tudo faz para subminá-la. “A Igreja é retrógrada, inimiga da ciência e do progresso, obscurantista, etc.” São estas as balelas mais correntes na boca do herege. Pode ele ser grande ignorante, a ciência será sempre o cavalo da batalha. Por isto arvora-se em mestre, de quem todos devem aprender, a que todos devem se dirigir, para conhecer a verdade, que até hoje ficou esquecida e descurada.

4. O herege, hábil sedutor que é, evitará o mais possível melindrar o sentimento religioso das pessoas que quer atrair para suas malhas. Por isto falará sempre com respeito da Bíblia; recheia os discursos com dizeres da Bíblia; com palavras bíblicas procura mostrar e comprovar a falsa doutrina. “A seu bel prazer interpretam as palavras da Sagrada Escritura – diz Santo Ambrósio – para, sob a capa de santas citações com mais facilidade poderem inocular o veneno dos erros”. Também o demônio sabe citar lugares bíblicos.

Conclusão: Ter muito cuidado com os hereges e evitar o mais possível o contato com eles. Sob pretexto nenhum entrar em discussões com eles, em matéria de religião e rejeitar-lhes os livros e publicações.